Press and News Integração da biodiversidade à nutrição no Brasil
Daniela Moura de Oliveira Beltrame, Coordenadora do Projeto Nacional Biodiversidade para Alimentação e Nutrição, explica por que o Brasil está colocando diversas espécies nativas no centro das políticas de desenvolvimento sustentável no último Blog da COP13 da CDB.
Daniela Moura de Oliveira Beltrame, Coordenadora Nacional de Projetos, Biodiversidade para Alimentação e Nutrição, explica por que o Brasil está colocando diversas espécies nativas no centro das políticas de desenvolvimento sustentável. Este blog faz parte de uma série especial para a COP13 da CBD que está destacando por que a integração da biodiversidade agrícola e arbórea em sistemas sustentáveis de produção e alimentação é fundamental para alcançar o Plano Estratégico para Biodiversidade da CBD.
Pergunta: Que desafios o Brasil está enfrentando em termos de nutrição?
O Brasil está enfrentando o triplo ônus da desnutrição, o que significa que, por um lado, temos uma taxa crescente de pessoas obesas e com sobrepeso, mas, por outro, temos partes da população que recebem uma deficiência de calorias. Também estamos observando deficiências generalizadas de micronutrientes - quando as pessoas não recebem as vitaminas e os minerais essenciais de que precisam para um desenvolvimento saudável. Por exemplo, cerca de um quarto das mulheres em idade reprodutiva tem anemia. Também é preciso considerar que essas formas de desnutrição podem ocorrer na mesma comunidade, na mesma família ou até mesmo na mesma pessoa - alguém que é subnutrido na primeira infância pode ficar acima do peso mais tarde na vida.
Pergunta: O que está causando essa crise nutricional?
A: Temos visto uma mudança nas dietas. As dietas costumavam conter uma mistura diversificada de vegetais frescos, frutas, carne e leite. Agora, como em muitos países do mundo, estamos vendo dietas mais simplificadas e um maior consumo de produtos ricos em gordura e carboidratos. Cerca de 70% dos alimentos que consumimos no Brasil são produzidos por pequenos agricultores, enquanto as grandes fazendas geralmente produzem commodities para exportação, como a cana-de-açúcar e a soja. Reconhecemos que há muito potencial para usar alimentos mais diversificados para melhorar a nutrição, se aproveitarmos a rica diversidade de espécies e variedades adaptadas localmente em nossos sistemas de produção de alimentos.
Pergunta: Como você se envolveu na iniciativa "Biodiversidade para Alimentação e Nutrição (B4FN)"
Eu estava concluindo meu doutorado em ciência dos alimentos e minha ex-orientadora era a então coordenadora nacional da iniciativa 'Biodiversity for Food and Nutrition (B4FN)'. Comecei auxiliando-a na coordenação e implementação das atividades, até que finalmente assumi o cargo de coordenadora nacional.
Através de meus estudos, eu já havia me conscientizado do potencial das espécies nativas para contribuir com a nutrição e a saúde, pois havia estudado algumas espécies silvestres - espécies que crescem espontaneamente em sistemas de cultivo que antes eram usadas como alimento, mas hoje são frequentemente descartadas - por exemplo, alguns vegetais não convencionais e chás medicinais. Quando comecei a trabalhar na B4FN, fiquei impressionado com o projeto e com o número de espécies nutritivas que foram esquecidas ou negligenciadas. A ideia de promover seu uso faz muito sentido.
Pergunta: Como o Brasil está fazendo com que as pessoas voltem a valorizar esses alimentos?
Para aumentar a conscientização sobre esses alimentos e seu potencial, é essencial aumentar a base de conhecimento científico sobre o conteúdo nutricional, implementando políticas de apoio que promovam a biodiversidade para a nutrição e por meio de campanhas de conscientização.
Por exemplo, temos parcerias com universidades nas cinco regiões do Brasil, que estão trabalhando para analisar o conteúdo nutricional de 70 espécies nativas priorizadas pela iniciativa e desenvolver receitas culinárias com elas. As 70 espécies vieram de uma iniciativa do Ministério do Meio Ambiente que já estava em andamento, chamada "Plantas para o Futuro". O trabalho está sendo feito com um grande grupo de especialistas, incluindo botânicos, agrônomos e pessoas que trabalham no campo com conhecimento local não apenas sobre as espécies locais, mas também sobre quais estão sendo mais usadas e por qual motivo.
Pergunta: Que tipo de políticas vocês estão implementando para promover alimentos biodiversos nas dietas e nos mercados?
Temos dois grandes programas de aquisição fornecidos por meio de nossos parceiros, o Programa de Alimentação Escolar e o Programa de Aquisição de Alimentos. Ambos têm um vínculo direto com os agricultores familiares para promover o cultivo e o uso de alimentos regionais. No Programa de Alimentação Escolar, as escolas podem comprar diretamente dos agricultores da região.
O governo também compra alimentos orgânicos e agroecológicos de agricultores familiares registrados a um preço premium. Esses alimentos são doados a pessoas em situação de insegurança alimentar ou estocados para uso futuro. Mais recentemente, foi criada outra modalidade que permite que outras instituições, como hospitais e presídios, também comprem alimentos de agricultores cadastrados. Por meio do B4FN, uma portaria com uma lista oficial de espécies comestíveis subutilizadas da biodiversidade brasileira foi lançada em 2016 para orientar esses programas de aquisição de alimentos e outras políticas públicas e, em última análise, aumentar sua utilização.
P: A Iniciativa está em andamento há quatro anos. Que mudanças você observou?
Trabalhamos com parceiros em nível federal e vimos muitas mudanças de comportamento ao longo desse tempo. Estamos estabelecendo parcerias estratégicas com diferentes ministérios e diferentes iniciativas, para incluir a biodiversidade nas políticas e aumentar a conscientização sobre sua importância para a nutrição. Costumávamos ver que, embora a biodiversidade fosse considerada nas políticas de segurança alimentar e nutricional, era do ponto de vista da conservação. Agora podemos ver em muitas publicações e materiais provenientes dos ministérios parceiros que eles estão promovendo o uso de diversas espécies nativas não convencionais.
Pergunta: Por que o Brasil está tão interessado em integrar a biodiversidade às metas de desenvolvimento?
Temos muito orgulho de nossos ecossistemas e, quando você menciona para os formuladores de políticas, pesquisadores e pessoas em geral que temos todos esses alimentos subutilizados que podem se tornar fontes adicionais de renda, promover a segurança alimentar e de renda para pequenas comunidades, agricultores familiares e agricultores em geral e, ao mesmo tempo, contribuir para conservar e promover nossa biodiversidade, eles geralmente ficam muito interessados em adotar e trabalhar com o projeto B4FN.
P: Qual é o seu alimento favorito que você redescobriu por meio do B4FN?
Minha família mora nos arredores de uma pequena cidade na região amazônica e, em sua propriedade, onde é possível encontrar muitas variedades de mangas (que não é uma espécie nativa), também temos muitos desses alimentos que temos pesquisado no projeto. Agora, quando vou para casa, dou uma volta e tento identificá-los.
Quando eu era jovem, lembro-me de que tínhamos algumas palmeiras (Buriti - nome científico Mauritia flexuosa) que agora sei que dão frutos que são realmente ricos em carotenoides. Quando eu era criança, nunca comíamos isso. Nunca. Apenas a víamos no chão e não a aproveitávamos. Agora, quando chego em casa, tento identificar essas espécies negligenciadas e mostrar à minha mãe como elas podem ser consumidas, com base também em receitas desenvolvidas pelas universidades parceiras. Eu digo: "Mamãe, você pode fazer isso, isso ou isso com elas". E eles estão começando a usá-las e desenvolveram um viveiro de árvores com espécies nativas. Portanto, esse é um exemplo muito real: usamos coisas que vieram do exterior, mas não valorizamos o que vem de nossa casa ou nem mesmo sabemos que podemos usá-lo.
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A iniciativa do GEF 'Mainstreaming biodiversity for nutrition and health' é liderada pelo Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia e coordenada pela Bioversity International, com o apoio de implementação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e apoio adicional do Programa de Pesquisa CGIAR sobre Agricultura para Nutrição e Saúde.
Este blog faz parte de uma série que a Bioversity International está lançando em torno da COP13 - Integração da Biodiversidade para o Bem-Estar. Os blogs explicam por que a integração da biodiversidade agrícola e arbórea é fundamental em sistemas sustentáveis de produção e alimentação, se quisermos alcançar o Plano de Ação Estratégico para a Biodiversidade 2011-2020 da Convenção sobre Diversidade Biológica, que diz: "Até 2050, a biodiversidade será valorizada, conservada, restaurada e amplamente utilizada, mantendo os serviços ecossistêmicos, sustentando um planeta saudável e proporcionando benefícios essenciais para todas as pessoas".
Eventos da COP13 da Bioversity International e parceiros
Foto 1: Programa de Alimentação Escolar e Aquisição de Alimentos no Brasil. Crédito: Daniela Moura de Oliveira Beltrame; Foto 2: Daniela Moura de Oliveira Beltrame, Coordenadora Nacional de Projetos, Biodiversidade para Alimentação e Nutrição
