Blog Colocando a biodiversidade de volta no cardápio do Brasil
Nova Portaria assinada sobre Sociobiodiversidade ajudará a aumentar o conhecimento e a promover o uso sustentável da biodiversidade nativa
O cientista sênior da Bioversity International, Danny Hunter, juntamente com Lidio Coradin, do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, falam sobre a importância da primeira publicação oficial no Brasil que reconhece uma lista de espécies alimentares nativas com valor nutricional atual ou potencial.
O Brasil tem altos índices de desnutrição e, apesar de ser considerado megadiverso, com a maior biodiversidade do mundo, o país não tem mais de dez espécies alimentares nativas consolidadas no mercado. Isso é um paradoxo, uma vez que o agronegócio do país é um dos mais fortes do mundo, mas baseado principalmente em espécies exóticas, como café, soja, milho, cana-de-açúcar, algodão, laranja e tabaco. Cada vez mais, o país cultiva um número cada vez menor de espécies e está perdendo sua biodiversidade nativa antes mesmo de seu valor e potencial serem percebidos.
Diante desse cenário, uma nova Portaria da Sociobiodiversidade - uma política pública aprovada pelo governo federal para recomendação e regulamentação - foi assinada no mês passado pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A portaria é a primeira a definir e apoiar espécies nativas nutricionalmente importantes. Ambos os ministérios consideram que ela ajudará a aumentar o conhecimento e a promover o uso sustentável de espécies da sociobiodiversidade e sua consequente conservação no Brasil.
Há uma oportunidade potencial para restaurar ecossistemas e alimentos que já fizeram parte de dietas tradicionais, embora haja uma lacuna crucial na base de conhecimento, que é a informação científica sobre o conteúdo nutricional de espécies alimentares nativas promissoras. É por isso que, como parte da iniciativa Biodiversidade para Alimentos e Nutrição (BFN) do GEF, coordenada pela Bioversity International, o conteúdo nutricional de mais de 100 espécies de alimentos nativos subutilizados está sendo investigado, e o Brasil está usando as informações geradas pelo projeto sobre espécies ricas em nutrientes para informar suas políticas de segurança alimentar e nutricional.
Desde 2012, a Bioversity International vem trabalhando com parceiros no Brasil para aumentar a conscientização sobre a importância da biodiversidade no contexto da alimentação e da nutrição, e também para melhorar os vínculos com o mercado a fim de garantir sua aceitação. Essa abordagem ajuda principalmente a superar a falta de apreciação de seu valor tanto pelos produtores quanto pelos consumidores. "Uma das conquistas até agora é que o programa está informando as políticas públicas envolvidas na alimentação escolar, por exemplo, fornecendo uma lista de espécies nativas ricas em nutrientes para possível inclusão em seus cardápios e, portanto, nas compras. O aumento das compras dessas espécies nas escolas também está sendo monitorado", diz Hunter.
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), uma das iniciativas parceiras do projeto, tem um componente crítico de aquisição de alimentos que garante que 30% dos produtos sejam comprados de pequenos produtores. Isso está resultando na capacitação dos produtores não apenas por meio desse fluxo de renda, que também paga um prêmio de 30% sobre os alimentos locais produzidos de forma sustentável, mas também por meio da criação de cooperativas que, muitas vezes, incluem produtores marginalizados, como as comunidades indígenas.
Ele também incentiva a produção diversificada na fazenda, o que, por sua vez, aumenta a resiliência, por exemplo, a eventos climáticos extremos, como a seca, que pode destruir toda a colheita de um único cultivo. No momento, a contagem da diversidade é baixa em termos de espécies adquiridas por meio do programa, mas isso também significa que há uma grande oportunidade de monitorar como o aumento da diversidade produzida, adquirida e consumida melhorará a nutrição em longo prazo e afetará os meios de subsistência dos pequenos produtores envolvidos.
Lidio Coradin, consultor do Ministério do Meio Ambiente e da Biodiversidade para o Diretor do Projeto de Alimentação e Nutrição no Brasil, diz que há vários programas e políticas federais sendo implementados, que desempenham um papel decisivo na melhoria da alimentação, nutrição e bem-estar humano no país, mas, apesar dessas iniciativas e dos altos recursos financeiros disponíveis, o país ainda tem altas taxas de sobrepeso e obesidade nas diferentes camadas da população. "Infelizmente, esses números estão aumentando. Atualmente, cerca de 57% da população sofre as consequências do excesso de peso e aproximadamente 21% da população acima de 18 anos está lutando com problemas de obesidade. Isso acontece principalmente devido à redução considerável do número de espécies que formam a base de nossa alimentação, ou mesmo ao baixo consumo de vegetais e frutas em geral. Precisamos diversificar nossa dieta e dar mais atenção aos aspectos nutricionais", destaca Coradin.
A nova Portaria, publicada em 18 de maio de 2016, é considerada um importante passo para a promoção do uso sustentável de espécies da sociobiodiversidade e sua consequente conservação. Essas espécies passarão a ser mais atrativas para os pequenos agricultores não apenas para o cultivo e conservação, mas também para o uso e comercialização, uma vez que passam a ter maior reconhecimento por parte das instituições federais, parceiras da iniciativa Biodiversidade para Alimentação e Nutrição - da qual sessenta e quatro espécies priorizadas constam na lista.
Coradin ainda acrescenta: "isso é apenas um ponto de partida para uma grande mudança". De sua perspectiva, esse reconhecimento formal, no nível do governo federal, promoverá e apoiará ativamente o uso sustentável de espécies nativas.
Para obter mais informações, entre em contato com Danny Hunter.
Em 2016, será realizada uma análise da composição dos alimentos para as espécies visadas pelo projeto, para as quais faltam dados nutricionais ou estes estão incompletos, em colaboração com institutos nacionais de pesquisa e universidades federais no Brasil. Ao mesmo tempo, por meio da colaboração contínua com a Iniciativa Plantas para o Futuro, e seguindo o livro já publicado para a região Sul do Brasil, serão publicados quatro livros que documentam as propriedades e os benefícios das plantas tradicionais das regiões Centro-Oeste, Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil. Um dos próximos passos também é trabalhar em uma estratégia para a aquisição da sociobiodiversidade, a fim de criar incentivos para que os municípios comprem esses produtos e, ao mesmo tempo, sejam recompensados por isso. Com a regra da oferta e da demanda, esperamos que mais agricultores cultivem e conservem as espécies da sociobiodiversidade. Por outro lado, também é necessário criar estratégias para atrair os agricultores, especialmente os pequenos, para o cultivo e a comercialização dessas espécies, empregando como incentivo o pagamento adicional pela venda.
A iniciativa 'Biodiversidade para Alimentação e Nutrição' do GEF é liderada pelo Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia e coordenada pela Bioversity International, com apoio de implementação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e apoio adicional do Programa de Pesquisa CGIAR sobre Agricultura para Nutrição e Saúde.
Foto superior:Cachos de pupunha (Bactris gasipaes). Crédito:Iniciativa Plantas para o Futuro
Foto inferior:Frutos de jabuticaba (Plinia cauliflora; Plinia peruviana). Crédito: Plants for the Future Initiative