From the Field Um negócio doce na Amazônia brasileira
Mais de 100 famílias de apicultores da Amazônia brasileira produzem mel, que vendem para o Instituto Peabiru. Além de receberem uma renda extra para sustentar seus meios de subsistência, essas comunidades estão promovendo a conservação das florestas por meio da polinização da vegetação nativa, o que, por sua vez, gera outros serviços ecossistêmicos. O Peabiru é um dos parceiros da Plataforma de Parcerias para a Amazônia (PPA), uma iniciativa liderada pelo setor privado no Brasil, financiada pela USAID e implementada pela Aliança da Bioversity e CIAT com o apoio de parceiros locais.
No coração da Amazônia, no norte do Brasil, no município de Curuçá, estado do Pará, está a casa de Marussa de Macedo, uma aposentada que se descreve com orgulho como defensora da natureza. Ela produz mel há vários anos, juntamente com outras centenas de famílias dos municípios do Pará e do Amapá dedicadas a esse doce negócio.
Há dez anos, Marussa já havia empreendido seu primeiro grande desafio: restaurar o pedaço de terra que herdara dos avós. O terreno estava abandonado e não produzia nenhum fruto. Mas os estudos que havia feito na área de meio ambiente foram suficientes para que sua fazenda, a Açai, voltasse a ser verde, com culturas como limão, maracujá, banana, café e pitaya, que a ajudariam a aproveitar a vida de aposentada. Marussa queria explorar um novo empreendimento: apicultura. No entanto, sua falta de experiência a atrapalhou, e as abelhas do gênero Apis (abelhas africanas com ferrão) não conseguiram prosperar. Um vizinho falou com ela sobre as abelhas nativas sem ferrão. Ela substituiu o macacão, o véu e as luvas que havia adquirido para se proteger das abelhas africanas por três caixas de abelhas nativas melipona.
Em um dos lados de sua fazenda, Marussa tem mais de 120.000 abelhas alojadas que produzem cerca de 30 kg de mel por ano. Atualmente, ela tem 40 caixas habitadas por abelhas, que vão e voltam de suas atividades como se fossem donas do local. As abelhas deixam suas caixas rústicas, sustentadas por cavaletes de 1 m, para se alimentar. Marussa descobriu que suas abelhas gostam de urucú (urucum) e pitanga; então ela plantou esses tipos de arbustos e outras espécies nativas ao redor da colmeia para mimar suas abelhas. Além de cumprir seu importante papel na polinização das culturas, as abelhas coletam o néctar das flores e, ao retornarem às suas colmeias, transformam-no em um mel suculento e transparente que Marussa vende, obtendo uma renda extra para sustentar seu sustento.
Marussa de Macedo é uma defensora da natureza; além de receber uma renda extra com o mel que produz, ela também destaca o importante trabalho de suas abelhas na polinização das plantas. Crédito: CIAT/S.Mattson
María Deuzuita Oliveria e Bernardo Nascimento dos Santos moram muito perto da fazenda de Marussa. Eles também vivem do negócio das abelhas. Com uma seringa de 20 cm e a ajuda de uma chave de fenda, Deuza, como prefere ser chamada, entra devagar e atinge o núcleo da colmeia. Dezenas de abelhas saem para atacar. Elas não picam, mas expressam seu descontentamento. "Elas ficam furiosas, porque sabem que vamos tirar o mel delas", diz Deuza, que tenta acalmá-las, perguntando-lhes: "tudo bem, estão com frio ou com calor?" ("Está tudo bem, está frio ou quente para vocês?").
Em um canto amplo de sua fazenda, esse casal abriga 200 caixas de abelhas, que na última safra produziram quase 100 kg de mel. Deuza e Bernardo recebem conselhos de seu filho Cleyton, que eles dizem ser um apicultor experiente e que viajou para o exterior para compartilhar sua experiência e segredos para uma boa produção de abelhas.
Marussa e Deuza vendem o mel que coletam para o Instituto Peabiru, o que significou uma cadeia de produção consolidada.
O Instituto Peabiru criou a Peabiru Produtos da Floresta para trabalhar na comercialização desse mel. A empresa garante a compra de mel das famílias do projeto e de outros grupos sociais interessados. Entretanto, as famílias não são obrigadas a vender seu mel para a empresa. Algumas famílias construíram relacionamentos por meio de redes sociais que permitem o acesso aos mercados locais.
De acordo com a Peabiru Produtos da Floresta, seus produtores associados obtiveram autorização para manejar suas colmeias, o que é uma exigência devido ao fato de as abelhas serem animais silvestres, e também a certificação de seu mel com o Selo de Inspeção Federal (SIF), o que lhes permite comercializar seu mel de abelhas sem ferrão em mercados formais em todo o Brasil.
O engenheiro Hermógenes J. Sá de Oliveira, do Instituto Peabiru, durante uma das visitas de campo na região do Pará, Brasil. Crédito: CIAT/S. Mattson
"No início, a principal preocupação era aumentar o número de caixas. Cada família começou com uma pequena quantidade (menos de 10 caixas em média) e hoje, depois de quase dez anos, são mais de 3.000 caixas em produção e outras 2.000 aguardando a conclusão do ciclo de reprodução. Em outras palavras, temos uma capacidade instalada de 5.000 caixas", explica o engenheiro Hermógenes J. Sá de Oliveira, do Instituto Peabiru.
Em 2017, foram vendidos 400 kg (0,4 tonelada) de mel. Esse número chegou a 1,1 tonelada na última safra, em 2019.
Por meio da produção de mel, essas comunidades estão promovendo a conservação das florestas, com a polinização da vegetação nativa, que, por sua vez, gera outros serviços ecossistêmicos ao produzir frutos para serem consumidos pelos moradores locais. O apoio a esse tipo de iniciativa traz vários benefícios para as comunidades locais e para o meio ambiente".
Wendy Francesconi
Líder da Subárea de Impacto Ambiental e Serviços Ecossistêmicos na Aliança da Bioversity International e CIAT.
Atualmente, o mel produzido nos municípios do Pará e do Amapá é vendido localmente sob o rótulo de "mel de abelha sem ferrão". No entanto, esse mel aquoso, com menor teor de açúcar e um toque amargo, está pronto para atravessar fronteiras. Ele terá o selo de mel produzido por abelhas cem por cento amazônicas.
Famílias criadoras de abelhas nos estados do Pará e Amapá vendem seu mel para o Instituto Peabiru que, por meio da Peabiru Produtos da Floresta, o coloca no mercado nacional com o rótulo de "mel de abelha sem ferrão". Créditos: Aliança da Bioversity e CIAT/S. Mattson, A. Varón e página da web da Peabiru Produtos da Floresta.
Uma plataforma mais doce para a inovação
O Instituto Peabiru é um dos parceiros da Plataforma de Parcerias para a Amazônia(PPA), uma iniciativa de ação coletiva liderada pelo setor privado no Brasil, que busca encontrar soluções inovadoras, tangíveis e práticas para o desenvolvimento sustentável e a conservação da biodiversidade, das florestas e dos recursos naturais na Amazônia. Esse programa é financiado pela USAID e implementado pela Aliança da Bioversity International e CIAT, com uma rede de parceiros locais.
Em seu primeiro ano de operações, o PPA apoiou 15 iniciativas que promovem a preservação, a restauração e o manejo sustentável de 873 hectares de floresta amazônica. Além disso, gerou 251 empregos diretos, 67% dos quais foram ocupados por mulheres. Em 2019, o Programa investiu mais de US$ 400 mil em iniciativas sustentáveis.
Recentemente, foi lançado o segundo ciclo do Programa de Treinamento de Aceleração da PPA, com a participação de 15 novas iniciativas sustentáveis selecionadas entre mais de 200 candidatas, que receberão capital financeiro fornecido por importantes empresas membros da plataforma.