Press and News O sabor residual do café de comércio justo
Desde seu início no século XX, todo o movimento do Comércio Justo foi organizado sob uma única organização de rotulagem, conhecida como Fair Trade International. Depois de divergir da Fair Trade International, a Fair Trade USA começou a certificar propriedades de café a fim de melhorar as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores rurais mais desfavorecidos.
Por Stefania Sellitti, Martha Del Río e Natalia Gutiérrez
Para entender se a certificação alcançou seus objetivos, demonstrando ser eficaz em capacitar os trabalhadores rurais e melhorar seus meios de subsistência, o Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT) conduziu a pesquisa projeto "Medindo e avaliando os impactos do Comércio Justo para Todos nos produtores, trabalhadores rurais e no sistema geral de mercado do Comércio Justo". Após o terceiro ano do projeto, analisamos os dados coletados para avaliar o impacto da certificação sobre o bem-estar e a capacitação dos trabalhadores rurais no Brasil e na Nicarágua. Criamos dois índices multidimensionais para avaliar a influência que a certificação tem em vários aspectos da vida dos trabalhadores.
O trabalho da CIAT
O CIAT coletou dados sobre propriedades certificadas e não certificadas na Nicarágua e no Brasil para poder comparar os meios de subsistência e o nível de empoderamento dos trabalhadores das propriedades que participam do sistema de Comércio Justo com os das propriedades não certificadas. Coletamos dados em dois níveis analíticos: micro, por meio da realização de pesquisas entre os trabalhadores rurais, e meso, usando entrevistas semiestruturadas e grupos focais. Essa abordagem de nosso estudo nos permitiu interpretar os resultados obtidos de nossa análise no nível micro em uma análise qualitativa leve realizada no nível meso.
Como mostrado em nosso post anterior, entrevistamos:
Brasil
Por Ovidio Rivera.
trabalhadores rurais de fazendas certificadas
trabalhadores rurais de fazendas não certificadas
trabalhadores rurais em uma pesquisa de linha de base
trabalhadores rurais em uma pesquisa final, dos quais
foram de fazendas certificadas
foram de fazendas não certificadas
Medição de índices multidimensionais
O índice de bem-estar dos trabalhadores rurais e de suas famílias é composto por cinco dimensões diferentes:
- Acessibilidade a serviços de saúde.
- Acessibilidade a serviços educacionais.
- Os padrões de vida da família, incluindo renda per capita, bens possuídos e qualidade da casa.
- Segurança alimentar das famílias.
- Satisfação com a vida.

Quanto ao índice de capacitação, decidimos incluir as seguintes informações:
- Envolvimento dos trabalhadores rurais na vida política.
- Acessibilidade a treinamento.
- Acessibilidade a serviços financeiros.
- Tipo de contrato (escrito ou verbal, de longo prazo ou de curto prazo).
- Qualidade do ambiente de trabalho.
- Número médio de horas de trabalho.
- Percentual de trabalhadores rurais da família que fazem parte de uma organização.

Encontros

Por Diana Cordoba.
Nossa análise revelou que a certificação contribuiu para o aumento do bem-estar dos trabalhadores rurais nicaraguenses e brasileiros. Em ambos os países, a melhoria no bem-estar se deve principalmente à melhoria nas dimensões saúde e educação, devido à maior percepção das famílias sobre a acessibilidade aos serviços educacionais e de saúde, ao fornecimento de subsídios para a educação e à diminuição da distância do centro de saúde mais próximo. Na Nicarágua, não encontramos um efeito da certificação na dimensão padrões de vida. No entanto, constatamos uma melhoria na qualidade das casas, especialmente devido ao aumento do número de residências com acesso à água por meio de tubulações e com eletricidade e banheiros ou latrinas. Por outro lado, constatamos um efeito positivo nos padrões de vida dos trabalhadores rurais brasileiros devido ao aumento do número de bens de propriedade da família, como bicicletas, computadores e acesso à Internet, e ao aumento da qualidade da casa, devido ao melhor acesso à água encanada e aos banheiros.
De nossos resultados, podemos deduzir que a eficácia da certificação também pode depender do tamanho da fazenda. De fato, descobrimos que a certificação contribui mais para a capacitação dos trabalhadores rurais nicaraguenses que vêm de propriedades menores do que para os trabalhadores rurais do Brasil, onde a propriedade certificada é muito maior do que a da Nicarágua. Tanto na Nicarágua quanto no Brasil, constatamos um maior acesso a serviços financeiros, enquanto na Nicarágua a certificação teve um efeito positivo também na dimensão acesso a treinamento.
Como desvantagem da certificação, constatamos que, tanto na Nicarágua quanto no Brasil, a qualidade do ambiente de trabalho diminuiu com a introdução da certificação. Isso pode ser um reflexo do aumento da pressão que os proprietários de fazendas exercem sobre os trabalhadores rurais, na esperança de aumentar a qualidade do café e vender mais com a certificação do FT.
Lições aprendidas
Nosso trabalho revelou que a certificação do FT para trabalhadores rurais tem um efeito positivo em vários aspectos do empoderamento e do bem-estar dos trabalhadores. Entretanto, essa análise precisa ser lida com cuidado, levando em conta o contexto do mercado cafeeiro. De fato, em nosso estudo, encontramos várias limitações, causadas principalmente pelas altas flutuações nos preços do mercado de café, pela pequena demanda por café FT e por problemas internos entre as partes interessadas. Além disso, ao analisar o efeito da certificação sobre os trabalhadores rurais nas propriedades, é essencial considerar que o impacto pode mudar com base no tamanho da fazenda e na participação em outros esquemas de certificação.
Com relação ao problema do tamanho da fazenda, descobrimos que as mudanças mais importantes com a certificação foram experimentadas pelos trabalhadores rurais de fazendas de tamanho médio, como a propriedade certificada da Nicarágua. Além disso, não conseguimos controlar algumas externalidades que poderiam ter influenciado o impacto da certificação. Por exemplo, na Nicarágua, há um novo modelo de negócios que deve ser considerado quando o impacto do Prêmio do Comércio Justo for analisado.
No caso do Brasil, a propriedade certificada pela FT foi a primeira empresa no país a possuir a certificação UTZ e um dos maiores fornecedores mundiais de café da Rainforest Alliance; portanto, ela já estava em conformidade com vários padrões de certificação e não precisou fazer nenhuma mudança significativa para se tornar Fair Trade Certified. Portanto, acreditamos que os valores positivos obtidos na análise quantitativa não podem ser totalmente atribuídos ao FT. Assim, nossos resultados podem ser interpretados de forma mais apropriada como uma contribuição que o FT dá para o empoderamento e o bem-estar dos trabalhadores rurais, em vez de um impacto.
Algumas fotos do trabalho de campo
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