Blog Por que a biodiversidade agrícola deve ser incorporada às políticas de desenvolvimento sustentável
No Dia Internacional da Diversidade Biológica, M. Ann Tutwiler passa seu blog para o convidado especial Braulio Ferreira de Souza Dias, Secretário Executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica.
No Dia Internacional da Diversidade Biológica de 2015 - com o tema Biodiversidade para o Desenvolvimento Sustentável, M. Ann Tutwiler passa seu blog para o convidado especial Braulio Ferreira de Souza Dias, Secretário Executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica. Ele explica por que o uso da biodiversidade agrícola é essencial para atingir as metas de desenvolvimento sustentável, por que a ciência deve ser importante para os formuladores de políticas e como no Brasil, seu país natal, uma forte vontade política está colocando a biodiversidade de volta no cardápio para melhorar a segurança alimentar e nutricional.
Braulio Ferreira de Souza Dias
Hoje é o Dia Internacional da Diversidade Biológica de 2015, com o tema da biodiversidade para o desenvolvimento sustentável.
Em setembro, a comunidade global decidirá sobre a agenda de desenvolvimento sustentável pós-2015, estabelecendo a estrutura que alinhará os investimentos globais em desenvolvimento social, econômico e ambiental nos próximos 15 anos. Nunca a necessidade de acertar essas decisões foi tão crítica. Desafios globais como desnutrição, pobreza, mudança climática e degradação ambiental precisam ser enfrentados em um planeta que está experimentando o rápido esgotamento de recursos, juntamente com o aumento das pressões populacionais.
Um caso em questão é a perda de biodiversidade. No entanto, embora a maioria dos esforços seja direcionada para interromper a perda de biodiversidade usando abordagens tradicionais de conservação, o que geralmente é ignorado é o uso potencial da biodiversidade para ajudar a atingir várias metas de desenvolvimento sustentável, especialmente aquelas ligadas aos nossos sistemas alimentares. Mas, para que isso aconteça, a biodiversidade para alimentação e nutrição precisa ser incorporada às políticas nacionais, bem como às agendas globais.
Como Secretário Executivo da Convenção sobre Diversidade Biológica, esse é um tema que me é caro. Comecei como biólogo, mas logo fiquei muito frustrado ao perceber a desconexão que existe entre a ciência e a formulação de políticas públicas. Por isso, mudei para a área de políticas públicas, trazendo comigo uma forte determinação pessoal de defender o uso da ciência como base para a tomada de decisões informadas sobre políticas. Uma área em que isso está começando a dar resultados é o uso da biodiversidade para melhorar a segurança alimentar e nutricional, como está acontecendo no meu país, o Brasil.
O Brasil faz parte da "Iniciativa de Biodiversidade para Alimentos e Nutrição" (BFN), que surgiu da iniciativa transversal da Convenção sobre Diversidade Biológica, com o apoio do Fundo Global para o Meio Ambiente e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A Iniciativa é liderada por quatro países, sendo os outros o Quênia, o Sri Lanka e a Turquia. Ela é coordenada pela Bioversity International, com quem trabalhamos em estreita colaboração há muitos anos.
O Brasil tem altos índices de desnutrição - por exemplo, 1 em cada 3 crianças com idade entre 5 e 9 anos está acima do peso. É um dos pontos mais importantes do mundo em termos de biodiversidade, grande parte da qual é comestível e nutritiva, mas muitas dessas espécies tradicionais saíram dos cardápios das famílias e das cestas de compras dos consumidores em favor de uma gama restrita de culturas básicas densas em energia.
O governo do Brasil deu total apoio à iniciativa BFN, concordando em usar as informações geradas pelo projeto sobre espécies ricas em nutrientes para informar suas políticas de segurança alimentar e nutricional. Uma lacuna crucial na base de conhecimento era a informação científica sobre o conteúdo nutricional de espécies alimentares nativas promissoras, de modo que agora o conteúdo nutricional de mais de 100 espécies alimentares nativas subutilizadas está sendo investigado.
Um dos principais fatores de perda de biodiversidade no contexto da biodiversidade para alimentação e nutrição é a falta de apreciação de seu valor por produtores e consumidores. No Brasil, assim como nos outros países da iniciativa, estão sendo feitos esforços para aumentar a conscientização sobre sua importância e melhorar os vínculos com o mercado para garantir sua aceitação. O governo brasileiro estabeleceu um programa de alimentação escolar para promover a educação alimentar saudável, reconectando a natureza com os alimentos para as crianças em idade escolar que fazem parte do programa. O investimento em educação é fundamental, pois essas crianças são os futuros produtores de alimentos, consumidores e protetores da biodiversidade.
O programa tem um componente adicional crítico de aquisição de alimentos que garante que 30% dos produtos sejam comprados de produtores de pequena escala. Isso resulta no empoderamento dos produtores não apenas por meio desse fluxo de renda, que também paga um prêmio de 30% sobre os alimentos locais produzidos de forma sustentável, mas também por meio da criação de cooperativas que frequentemente incluem produtores marginalizados, como as comunidades indígenas. Também incentiva a produção diversificada na fazenda, o que, por sua vez, aumenta a resistência, por exemplo, a eventos climáticos extremos, como a seca, que pode destruir toda a colheita de um único cultivo. No momento, a contagem da diversidade é baixa em termos de espécies adquiridas por meio do programa, mas isso também significa que há uma grande oportunidade de monitorar como o aumento da diversidade produzida, adquirida e consumida melhorará a nutrição em longo prazo e afetará os meios de subsistência dos pequenos produtores envolvidos.
Todos os países envolvidos na Iniciativa aproveitarão a ocasião do Dia Internacional da Diversidade Biológica para aumentar a conscientização sobre a importância da biodiversidade para a alimentação e a nutrição. Por exemplo, no Sri Lanka, hoje, Sua Excelência Hon. Maithripala Sirisena, Presidente da República Socialista Democrática, está inaugurando a abertura de um mercado de alimentos tradicionais com o Ministério do Meio Ambiente.
Antes de encerrar este dia especial, gostaria de chamar sua atenção para um novo livro que produzimos com a Organização Mundial da Saúde, "Connecting Global Priorities: Biodiversity and human health" (Conectando prioridades globais: biodiversidade e saúde humana). Trabalhamos com muitos parceiros, incluindo a Bioversity International, que contribuiu com dois capítulos, para reunir a atual base de evidências sobre as ligações entre saúde humana, nutrição e sustentabilidade ambiental. O livro é um recurso valioso, não apenas para informar a recente mudança em direção a uma agricultura mais sensível à nutrição, mas também para identificar lacunas de conhecimento para identificar futuras áreas de trabalho.
Estamos no início de uma longa jornada, mas vejo muitas oportunidades de ajudar a moldar o diálogo sobre desenvolvimento sustentável para que seja mais sensível à biodiversidade, se pudermos aprimorar a base científica e fazer com que cientistas e formuladores de políticas conversem.
Feliz Dia Internacional da Diversidade Biológica
Braulio Ferreira de Souza Dias, Secretário Executivo, Convenção sobre Diversidade Biológica
A iniciativa do GEF 'Mainstreaming biodiversity for nutrition and health' é liderada pelo Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia e coordenada pela Bioversity International, com apoio de implementação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e apoio adicional do Programa de Pesquisa CGIAR sobre Agricultura para Nutrição e Saúde.
Fotos:
- Braulio Ferreira de Souza Dias. Crédito: Convenção sobre Diversidade Biológica
- Sterculia, também conhecida como castanha tropical, Brasil. Crédito: F.Tatagiba